- O contrato futuro de boi gordo da B3 (código BGI) vale 330 arrobas, vence todo mês e é liquidado só em dinheiro, pela média de cinco publicações do Indicador do Boi DATAGRO.
- Fazer hedge de venda é vender contratos hoje para o mês em que o boi sai. Se a arroba cair, o ganho no futuro compensa o físico; se subir, a perda no futuro come o ganho do físico.
- O hedge trava o preço do indicador, não o da sua praça. A diferença entre os dois, a base, continua sendo risco seu.
- Exige corretora, margem de garantia e caixa para o ajuste diário. Para quem não quer bolsa, existem o termo com o frigorífico, as opções e a CPR.
O que é o mercado futuro do boi gordo na B3
Um contrato futuro é um acordo de preço para uma data à frente. Na B3, a bolsa brasileira, existe um contrato desses para o boi gordo. Quem vende um contrato se compromete com um preço por arroba para um mês de vencimento. Quem compra fica do outro lado.
Ninguém entrega boi na bolsa. O contrato é de liquidação financeira: no vencimento, a diferença entre o preço combinado e o preço de referência é paga em dinheiro. O boi continua sendo vendido ao frigorífico da sua praça, e a posição na bolsa anda no sentido contrário. É isso que faz do futuro um seguro de preço.
Contrato futuro de boi gordo: a especificação da B3
As regras abaixo estão no Ofício Circular 135/2024 da B3, que trocou o índice de liquidação e manteve as demais características do contrato.
| Item | Como é |
|---|---|
| Código | BGI |
| Objeto | Bovinos machos com 16 arrobas líquidas ou mais de carcaça e até 42 meses de idade |
| Tamanho | 330 arrobas líquidas por contrato |
| Cotação | Reais por arroba, com duas casas, sem a contribuição previdenciária rural (o Funrural) |
| Variação mínima | R$ 0,05 por arroba |
| Vencimentos | Todos os meses |
| Vencimento e último dia de negociação | Último dia de pregão do mês de vencimento |
| Liquidação | Financeira, pela média das 5 últimas publicações do Indicador do Boi DATAGRO até o vencimento |
| Ajuste diário | Sim, com o dinheiro movimentado no dia útil seguinte |
| Margem de garantia | Exigida de quem tem posição aberta; valor atualizado diariamente pela B3 |
Até o vencimento de janeiro de 2025, a referência era o Indicador CEPEA/B3. Do vencimento de fevereiro de 2025 em diante, é o Indicador do Boi DATAGRO, que tem como base a praça de São Paulo. Se você quer entender por que existem dois indicadores e qual deles pesa na sua venda, o artigo sobre o indicador do boi gordo explica a diferença.
O código de cada mês
Cada vencimento tem um código: BGI, mais a letra do mês, mais os dois dígitos do ano. BGIV26 é outubro de 2026. BGIZ26 é dezembro de 2026.
| Mês | Letra | Mês | Letra |
|---|---|---|---|
| Janeiro | F | Julho | N |
| Fevereiro | G | Agosto | Q |
| Março | H | Setembro | U |
| Abril | J | Outubro | V |
| Maio | K | Novembro | X |
| Junho | M | Dezembro | Z |
Nem todo mês tem o mesmo volume de negócios, e pouco volume piora o preço de entrada e de saída. A corretora sabe dizer quais vencimentos estão mais líquidos.
Hedge de boi gordo: como travar o preço da arroba, passo a passo
Hedge é proteção. No caso de quem tem boi para vender, o hedge de venda funciona assim: você vende contratos futuros agora, para o mês em que o lote deve sair. A partir daí, o que você perde de um lado tende a ganhar do outro.
O exemplo abaixo é hipotético. Os números são redondos de propósito e não são preço de mercado de hoje.
O ponto de partida do exemplo
Um pecuarista tem 165 bois que devem sair em outubro, com 20 arrobas cada: 3.300 arrobas, o equivalente a 10 contratos.
Hoje, o contrato de outubro está em R$ 300,00/@. Na praça dele, o boi costuma valer R$ 10,00 abaixo do indicador.
Preço esperado na praça = 300,00 − 10,00 = R$ 290,00/@Ele vende 10 contratos de outubro a R$ 300,00. Em outubro, vende o boi ao frigorífico e encerra os contratos no mesmo dia.
| Exemplo hipotético | A arroba cai | A arroba sobe |
|---|---|---|
| Indicador em outubro | R$ 270,00/@ | R$ 330,00/@ |
| Preço na praça (base de −R$ 10,00) | R$ 260,00/@ | R$ 320,00/@ |
| Venda do boi (3.300 @) | R$ 858.000 | R$ 1.056.000 |
| Resultado dos 10 contratos | + R$ 99.000 | − R$ 99.000 |
| Total físico + futuro | R$ 957.000 | R$ 957.000 |
| Preço efetivo por arroba | R$ 290,00/@ | R$ 290,00/@ |
| Sem hedge, só o físico | R$ 858.000 | R$ 1.056.000 |
De onde saem os R$ 99.000: a diferença entre R$ 300,00 e o indicador de outubro é de R$ 30,00 por arroba. Vezes 330 arrobas, vezes 10 contratos, dá R$ 99.000.
Na queda, o hedge salvou R$ 99.000. Na alta, custou R$ 99.000 que o pecuarista teria ganho sem ele. O hedge não melhora o preço: tira a incerteza do caminho. Quem trava abre mão da alta para não carregar a queda. A aposta implícita é que, para aquela fazenda, previsibilidade vale mais do que a chance de pegar uma alta.
Para saber se R$ 290,00 na praça paga a conta, o preço precisa ser comparado com o custo do lote. O simulador de margem faz essa conta com os seus números.
Ajuste diário e margem de garantia: o caixa que o hedge exige
O resultado do futuro não chega só no vencimento. Ele é acertado todo dia. É o ajuste diário: a B3 compara o preço de fechamento do dia, chamado preço de ajuste, com o do dia anterior, e movimenta a diferença na conta de cada lado no dia útil seguinte.
A conta do ajuste
Ajuste = (ajuste de hoje − ajuste de ontem) × 330 × número de contratosSe o resultado é positivo, o comprador recebe e o vendedor paga. Se é negativo, o contrário.
No exemplo, se o contrato de outubro sobe de R$ 300,00 para R$ 302,00 num dia, o pecuarista que vendeu 10 contratos paga R$ 6.600 no dia útil seguinte.
No cenário de alta, os R$ 99.000 de perda no futuro saem do caixa aos poucos, antes de o boi ser vendido. O dinheiro do boi mais caro só entra em outubro. Quem não tem caixa para esse intervalo pode ter de encerrar a posição no meio do caminho, e fica com a perda e sem a proteção.
Além do ajuste, a B3 exige margem de garantia: um valor depositado enquanto a posição estiver aberta, recalculado diariamente. Como muda com o mercado, este artigo não cita número. Corretagem, taxas da bolsa e imposto sobre ganho também entram na conta. Vale pedir tudo por escrito à corretora e ao contador.
Regra prática: antes de vender contratos, faça a pergunta inversa. Se a arroba subir R$ 30,00 até o vencimento, de onde sai o dinheiro do ajuste? Se a resposta não for clara, o hedge ainda não está pronto.
Risco de base: a diferença entre a sua praça e o indicador
O contrato liquida pelo indicador de São Paulo. O seu boi é vendido na sua praça. A diferença entre os dois preços se chama base. No exemplo, ela era de −R$ 10,00, e por isso o preço travado na praça foi R$ 290,00, não R$ 300,00.
O problema é que a base também se mexe. Se, em outubro, a praça estiver pagando R$ 15,00 abaixo do indicador em vez de R$ 10,00, o preço efetivo cai para R$ 285,00. Nenhum contrato da B3 protege isso.
A base varia com a oferta de boi na região, a escala dos frigoríficos locais, o frete e as bonificações. Também há descasamento de data: você vende o boi num dia, e o contrato liquida pela média dos cinco últimos indicadores do mês. Quem não conhece o histórico da própria praça contra o indicador não sabe o que está travando.
Acompanhe o físico e a curva da B3 lado a lado
Todo dia útil, às 07h30, o BoiMarket manda no WhatsApp dois sinais independentes, um de venda e um de reposição, e o painel aberto mostra a curva futura da B3.
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Como ler a curva futura do boi gordo
A curva futura é a fila de preços dos contratos, um para cada mês: outubro, novembro, dezembro e assim por diante. O painel do BoiMarket mostra essa curva ao lado do indicador físico.
Cada ponto da curva é o preço em que compradores e vendedores aceitaram fechar negócio hoje para aquele mês. É o que o mercado está precificando, não uma previsão garantida. Ela já embute o que se espera de oferta, entressafra e exportação. Amanhã, com informação nova, é outra.
- Futuro acima do físico: o mercado está pagando hoje mais pelo boi de lá na frente. Para quem tem boi para aquele mês, é um preço disponível para travar, se a conta fechar.
- Futuro abaixo do físico: o mercado não acredita que o preço de hoje se sustenta até lá. Para quem pode escolher a data de venda, é uma informação sobre o prazo.
- Físico firme e curva caindo: os dois sinais estão brigando. Esse é justamente o momento que merece mais atenção, não menos.
A curva também muda de forma ao longo do ano, com a safra e a entressafra do capim, e ao longo de anos, com o ciclo pecuário. Ler o preço de um contrato sem saber em que fase o mercado está é ler metade da história.
Alternativas para quem não quer operar na bolsa
A B3 não é o único jeito de reduzir o risco de preço. Há três caminhos comuns:
- Termo com o frigorífico: o preço é combinado hoje para um abate futuro, direto com quem compra o boi. Não tem ajuste diário nem margem na bolsa. Em troca, você depende daquele frigorífico cumprir o combinado, e as cláusulas de peso, acabamento e data passam a valer muito. Leia o contrato inteiro.
- Opções sobre o futuro de boi gordo: a B3 também lista opções, com o mesmo tamanho de 330 arrobas. Quem compra uma opção de venda paga um prêmio adiantado e ganha o direito a um preço mínimo. Se a arroba cair abaixo dele, a opção compensa. Se subir, você perde só o prêmio e fica com a alta. Quem compra a opção não paga ajuste diário. O prêmio é o custo, e a liquidez varia por vencimento.
- CPR, a Cédula de Produto Rural: é um título que o produtor emite, criado pela Lei 8.929/1994. Pode ser física, com entrega do boi, ou financeira, liquidada em dinheiro por um preço de referência. Em geral está ligada a crédito e financiamento. Por ser título com força de cobrança, merece leitura com advogado ou com o banco.
Nenhuma é melhor em tese. Depende do lote, do caixa e do risco de contraparte que você aceita.
Quem deve e quem não deve usar o mercado futuro
Faz mais sentido para quem:
- tem escala: um contrato são 330 arrobas, algo entre 16 e 20 bois terminados, e só se negocia contrato inteiro;
- conhece o custo do lote e sabe que preço paga a conta;
- tem caixa separado para margem e ajustes, mesmo no cenário de alta forte;
- conhece a base da própria praça contra o indicador.
Faz menos sentido para quem:
- tem lote pequeno, que não fecha um contrato;
- não tem folga de caixa até a venda do boi;
- não sabe a data provável de saída do lote;
- está pensando em ganhar com a variação, e não em proteger o boi que já tem. Isso não é hedge, é especulação.
Este artigo é educativo. Operar derivativos tem risco, exige corretora, margem e caixa para o ajuste diário, e pode gerar perdas. Antes de qualquer operação, converse com a sua corretora ou com um assessor. O BoiMarket lê o cenário; a decisão é sua.
Perguntas frequentes
Quantas arrobas tem um contrato futuro de boi gordo na B3?
Cada contrato do boi gordo na B3, de código BGI, vale 330 arrobas líquidas. Isso dá algo entre 16 e 20 bois terminados, conforme o peso de carcaça. Só se negocia contrato inteiro, então a proteção é feita em blocos de 330 arrobas.
O contrato futuro de boi gordo é liquidado com a entrega do boi?
Não. A liquidação é só financeira. Quem fica com a posição até o vencimento acerta a diferença em dinheiro pela média de cinco publicações do Indicador do Boi DATAGRO. O boi continua sendo vendido normalmente para o frigorífico da sua praça.
Preciso ter dinheiro em caixa para fazer hedge na B3?
Precisa. A B3 exige margem de garantia e cobra ajuste diário: se a arroba sobe depois que você vendeu contratos, você paga a diferença no dia útil seguinte, antes de vender o boi. Sem caixa para esses ajustes, o hedge pode ter de ser encerrado no pior momento.
O preço da curva futura da B3 é uma previsão da arroba?
Não. A curva mostra o preço em que compradores e vendedores aceitam fechar negócio hoje para cada mês. É o que o mercado está precificando agora, e muda todo dia. O indicador no vencimento pode ficar acima ou abaixo desse preço.
Quem não quer operar na bolsa tem como travar o preço da arroba?
Há alternativas. O contrato a termo com o frigorífico fixa o preço sem ajuste diário, mas depende da contraparte e das cláusulas. A compra de opção de venda na B3 cria um preço mínimo mediante o pagamento de um prêmio. A CPR é um título do produtor rural que pode ser física ou financeira. Cada uma tem custo e risco próprios.
Maiton Lima é fundador do BoiMarket, que lê o mercado do boi gordo todo dia útil e entrega dois sinais independentes — venda e reposição — no WhatsApp. Conheça o BoiMarket.
Conteúdo informativo e educativo. Não é recomendação de compra, venda ou investimento: cada fazenda tem seu custo, seu prazo e seu caixa, e a decisão é sua.