Gestão de risco

Mercado futuro do boi gordo na B3: como funciona o hedge para travar o preço da arroba

O contrato, o ajuste diário, o risco de base e um exemplo com as contas abertas. Para entender antes de conversar com a corretora, não para sair operando.

Por Maiton Lima Publicado em Leitura: 9 min
Em resumo

O que é o mercado futuro do boi gordo na B3

Um contrato futuro é um acordo de preço para uma data à frente. Na B3, a bolsa brasileira, existe um contrato desses para o boi gordo. Quem vende um contrato se compromete com um preço por arroba para um mês de vencimento. Quem compra fica do outro lado.

Ninguém entrega boi na bolsa. O contrato é de liquidação financeira: no vencimento, a diferença entre o preço combinado e o preço de referência é paga em dinheiro. O boi continua sendo vendido ao frigorífico da sua praça, e a posição na bolsa anda no sentido contrário. É isso que faz do futuro um seguro de preço.

Contrato futuro de boi gordo: a especificação da B3

As regras abaixo estão no Ofício Circular 135/2024 da B3, que trocou o índice de liquidação e manteve as demais características do contrato.

ItemComo é
CódigoBGI
ObjetoBovinos machos com 16 arrobas líquidas ou mais de carcaça e até 42 meses de idade
Tamanho330 arrobas líquidas por contrato
CotaçãoReais por arroba, com duas casas, sem a contribuição previdenciária rural (o Funrural)
Variação mínimaR$ 0,05 por arroba
VencimentosTodos os meses
Vencimento e último dia de negociaçãoÚltimo dia de pregão do mês de vencimento
LiquidaçãoFinanceira, pela média das 5 últimas publicações do Indicador do Boi DATAGRO até o vencimento
Ajuste diárioSim, com o dinheiro movimentado no dia útil seguinte
Margem de garantiaExigida de quem tem posição aberta; valor atualizado diariamente pela B3

Até o vencimento de janeiro de 2025, a referência era o Indicador CEPEA/B3. Do vencimento de fevereiro de 2025 em diante, é o Indicador do Boi DATAGRO, que tem como base a praça de São Paulo. Se você quer entender por que existem dois indicadores e qual deles pesa na sua venda, o artigo sobre o indicador do boi gordo explica a diferença.

O código de cada mês

Cada vencimento tem um código: BGI, mais a letra do mês, mais os dois dígitos do ano. BGIV26 é outubro de 2026. BGIZ26 é dezembro de 2026.

MêsLetraMêsLetra
JaneiroFJulhoN
FevereiroGAgostoQ
MarçoHSetembroU
AbrilJOutubroV
MaioKNovembroX
JunhoMDezembroZ

Nem todo mês tem o mesmo volume de negócios, e pouco volume piora o preço de entrada e de saída. A corretora sabe dizer quais vencimentos estão mais líquidos.

Hedge de boi gordo: como travar o preço da arroba, passo a passo

Hedge é proteção. No caso de quem tem boi para vender, o hedge de venda funciona assim: você vende contratos futuros agora, para o mês em que o lote deve sair. A partir daí, o que você perde de um lado tende a ganhar do outro.

O exemplo abaixo é hipotético. Os números são redondos de propósito e não são preço de mercado de hoje.

O ponto de partida do exemplo

Um pecuarista tem 165 bois que devem sair em outubro, com 20 arrobas cada: 3.300 arrobas, o equivalente a 10 contratos.

Hoje, o contrato de outubro está em R$ 300,00/@. Na praça dele, o boi costuma valer R$ 10,00 abaixo do indicador.

Preço esperado na praça = 300,00 − 10,00 = R$ 290,00/@

Ele vende 10 contratos de outubro a R$ 300,00. Em outubro, vende o boi ao frigorífico e encerra os contratos no mesmo dia.

Exemplo hipotéticoA arroba caiA arroba sobe
Indicador em outubroR$ 270,00/@R$ 330,00/@
Preço na praça (base de −R$ 10,00)R$ 260,00/@R$ 320,00/@
Venda do boi (3.300 @)R$ 858.000R$ 1.056.000
Resultado dos 10 contratos+ R$ 99.000− R$ 99.000
Total físico + futuroR$ 957.000R$ 957.000
Preço efetivo por arrobaR$ 290,00/@R$ 290,00/@
Sem hedge, só o físicoR$ 858.000R$ 1.056.000

De onde saem os R$ 99.000: a diferença entre R$ 300,00 e o indicador de outubro é de R$ 30,00 por arroba. Vezes 330 arrobas, vezes 10 contratos, dá R$ 99.000.

Na queda, o hedge salvou R$ 99.000. Na alta, custou R$ 99.000 que o pecuarista teria ganho sem ele. O hedge não melhora o preço: tira a incerteza do caminho. Quem trava abre mão da alta para não carregar a queda. A aposta implícita é que, para aquela fazenda, previsibilidade vale mais do que a chance de pegar uma alta.

Para saber se R$ 290,00 na praça paga a conta, o preço precisa ser comparado com o custo do lote. O simulador de margem faz essa conta com os seus números.

Ajuste diário e margem de garantia: o caixa que o hedge exige

O resultado do futuro não chega só no vencimento. Ele é acertado todo dia. É o ajuste diário: a B3 compara o preço de fechamento do dia, chamado preço de ajuste, com o do dia anterior, e movimenta a diferença na conta de cada lado no dia útil seguinte.

A conta do ajuste

Ajuste = (ajuste de hoje − ajuste de ontem) × 330 × número de contratos

Se o resultado é positivo, o comprador recebe e o vendedor paga. Se é negativo, o contrário.

No exemplo, se o contrato de outubro sobe de R$ 300,00 para R$ 302,00 num dia, o pecuarista que vendeu 10 contratos paga R$ 6.600 no dia útil seguinte.

No cenário de alta, os R$ 99.000 de perda no futuro saem do caixa aos poucos, antes de o boi ser vendido. O dinheiro do boi mais caro só entra em outubro. Quem não tem caixa para esse intervalo pode ter de encerrar a posição no meio do caminho, e fica com a perda e sem a proteção.

Além do ajuste, a B3 exige margem de garantia: um valor depositado enquanto a posição estiver aberta, recalculado diariamente. Como muda com o mercado, este artigo não cita número. Corretagem, taxas da bolsa e imposto sobre ganho também entram na conta. Vale pedir tudo por escrito à corretora e ao contador.

Regra prática: antes de vender contratos, faça a pergunta inversa. Se a arroba subir R$ 30,00 até o vencimento, de onde sai o dinheiro do ajuste? Se a resposta não for clara, o hedge ainda não está pronto.

Risco de base: a diferença entre a sua praça e o indicador

O contrato liquida pelo indicador de São Paulo. O seu boi é vendido na sua praça. A diferença entre os dois preços se chama base. No exemplo, ela era de −R$ 10,00, e por isso o preço travado na praça foi R$ 290,00, não R$ 300,00.

O problema é que a base também se mexe. Se, em outubro, a praça estiver pagando R$ 15,00 abaixo do indicador em vez de R$ 10,00, o preço efetivo cai para R$ 285,00. Nenhum contrato da B3 protege isso.

A base varia com a oferta de boi na região, a escala dos frigoríficos locais, o frete e as bonificações. Também há descasamento de data: você vende o boi num dia, e o contrato liquida pela média dos cinco últimos indicadores do mês. Quem não conhece o histórico da própria praça contra o indicador não sabe o que está travando.

Acompanhe o físico e a curva da B3 lado a lado

Todo dia útil, às 07h30, o BoiMarket manda no WhatsApp dois sinais independentes, um de venda e um de reposição, e o painel aberto mostra a curva futura da B3.

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Como ler a curva futura do boi gordo

A curva futura é a fila de preços dos contratos, um para cada mês: outubro, novembro, dezembro e assim por diante. O painel do BoiMarket mostra essa curva ao lado do indicador físico.

Cada ponto da curva é o preço em que compradores e vendedores aceitaram fechar negócio hoje para aquele mês. É o que o mercado está precificando, não uma previsão garantida. Ela já embute o que se espera de oferta, entressafra e exportação. Amanhã, com informação nova, é outra.

A curva também muda de forma ao longo do ano, com a safra e a entressafra do capim, e ao longo de anos, com o ciclo pecuário. Ler o preço de um contrato sem saber em que fase o mercado está é ler metade da história.

Alternativas para quem não quer operar na bolsa

A B3 não é o único jeito de reduzir o risco de preço. Há três caminhos comuns:

Nenhuma é melhor em tese. Depende do lote, do caixa e do risco de contraparte que você aceita.

Quem deve e quem não deve usar o mercado futuro

Faz mais sentido para quem:

Faz menos sentido para quem:

Este artigo é educativo. Operar derivativos tem risco, exige corretora, margem e caixa para o ajuste diário, e pode gerar perdas. Antes de qualquer operação, converse com a sua corretora ou com um assessor. O BoiMarket lê o cenário; a decisão é sua.

Perguntas frequentes

Quantas arrobas tem um contrato futuro de boi gordo na B3?

Cada contrato do boi gordo na B3, de código BGI, vale 330 arrobas líquidas. Isso dá algo entre 16 e 20 bois terminados, conforme o peso de carcaça. Só se negocia contrato inteiro, então a proteção é feita em blocos de 330 arrobas.

O contrato futuro de boi gordo é liquidado com a entrega do boi?

Não. A liquidação é só financeira. Quem fica com a posição até o vencimento acerta a diferença em dinheiro pela média de cinco publicações do Indicador do Boi DATAGRO. O boi continua sendo vendido normalmente para o frigorífico da sua praça.

Preciso ter dinheiro em caixa para fazer hedge na B3?

Precisa. A B3 exige margem de garantia e cobra ajuste diário: se a arroba sobe depois que você vendeu contratos, você paga a diferença no dia útil seguinte, antes de vender o boi. Sem caixa para esses ajustes, o hedge pode ter de ser encerrado no pior momento.

O preço da curva futura da B3 é uma previsão da arroba?

Não. A curva mostra o preço em que compradores e vendedores aceitam fechar negócio hoje para cada mês. É o que o mercado está precificando agora, e muda todo dia. O indicador no vencimento pode ficar acima ou abaixo desse preço.

Quem não quer operar na bolsa tem como travar o preço da arroba?

Há alternativas. O contrato a termo com o frigorífico fixa o preço sem ajuste diário, mas depende da contraparte e das cláusulas. A compra de opção de venda na B3 cria um preço mínimo mediante o pagamento de um prêmio. A CPR é um título do produtor rural que pode ser física ou financeira. Cada uma tem custo e risco próprios.

Maiton Lima é fundador do BoiMarket, que lê o mercado do boi gordo todo dia útil e entrega dois sinais independentes — venda e reposição — no WhatsApp. Conheça o BoiMarket.

Conteúdo informativo e educativo. Não é recomendação de compra, venda ou investimento: cada fazenda tem seu custo, seu prazo e seu caixa, e a decisão é sua.

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